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Dor muscular: os remédios usados após o treino na academia têm riscos?

Analgésicos podem mascarar lesões graves e alguns tipos de anti-inflamatórios podem sobrecarregar os rins, causar irritação no estômago e até reduzir o potencial de recuperação do músculo
A dúvida
Existe algum risco no uso de remédios para dores musculares por causa do treino da academia?
Guilherme Brigidi, Santo André – SP

Para entender
A dor muscular após qualquer tipo de exercício físico – pode ser na academia, em uma corrida de rua, em uma aula de ioga – é uma reação normal do organismo. O esforço causa pequenas lesões musculares. “É a partir dessa lesão que o músculo vai se reparar de uma maneira mais forte, mais resistente”, diz o endocrinologista Francisco Tostes, especializado em medicina do esporte. É o que contribui para o esperado efeito de fortalecimento e de ganho de massa magra. Medicamentos analgésicos, como paracetamol, anti-inflamatórios, como ibuprofeno, e relaxantes musculares costumam ser usados para aliviar esse tipo de dor. Nos casos do paracetamol e do ibuprofeno, como são vendidos sem receita médica, muitas pessoas acreditam que eles não têm efeitos colaterais importantes. Mas, como qualquer droga, o uso inadequado traz riscos.

O que a ciência diz

O  paracetamol é um analgésico muito comum, mas tem grande potencial de causar problemas no fígado se ingerido em quantidades inadequadas. Como medida de segurança, alguns médicos sugerem restringir a ingestão de no máximo cinco comprimidos de 750 miligramas, respeitando um intervalo mínimo entre quatro e seis horas. Normalmente, uma única dose já é o suficiente para aliviar o desconforto causado por um treino mais intenso.
Relaxantes musculares precisam de prescrição médica. Podem interagir com outras drogas e têm efeitos colaterais importantes, como aumentar a sonolência. Parece um efeito banal, mas pode colocar uma pessoa em risco se ela for andar sozinha, dirigir ou operar equipamentos.

O ibuprofeno, um anti-inflamatório, inibe moléculas chamadas prostaglandinas, que atuam nas células e podem aumentar a sensibilidade dos receptores de dor. O problema é que elas também têm outras funções no organismo. Por isso, tomar o anti-inflamatório com frequência traz outras consequências. Pode ocorrer uma diminuição da produção do muco que reveste e protege partes do sistema digestório. “Quando há redução do muco, você pode desenvolver irritação no esôfago, a esofagite, no estômago, a gastrite, e até úlcera, uma espécie de ferida no estômago”, diz o neurocirurgião José Oswaldo de Oliveira Junior, um dos diretores da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED).

As prostaglandinas também ajudam a controlar o fluxo de sangue, ao promover a dilatação dos vasos sanguíneos. Como o ibuprofeno inibe sua produção, pode reduzir o fluxo que chega aos rins, responsáveis pela filtragem do sangue e pela eliminação de toxinas do corpo. Um novo estudo, publicado em julho, mostra como esse efeito pode ser severo sobre os rins de pessoas que praticam esportes de resistência e impacto prolongados, como é o caso dos ultramaratonistas (que fazem provas com mais de 42 quilômetros). 

Os pesquisadores do Departamento de Medicina de Emergência da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, analisaram 89 atletas entre 18 e 75 anos que não tinham nenhum problema renal. Durante a prova, foram colhidas amostras de sangue para avaliar a quantidade de creatinina, uma substância usada como parâmetro para avaliar a função dos rins. Quando há algum comprometimento na filtragem, os níveis de creatinina são altos. Do total de participantes, quase a metade (44%) tinha níveis de creatinina tão altos no sangue que eram compatíveis com lesão nos rins. Poderia ser um impacto comum causado pelo esforço da prova. Mas, entre esses atletas, os que haviam tomado ibuprofeno tinham uma tendência 18% maior de ter o nível de creatinina aumentado e de ter lesões mais graves nos rins. Os pesquisadores não acompanharam os atletas após a prova, mas acreditam que eles tenham se recuperado. As consequências a longo prazo também não foram analisadas pelos autores do estudo. O impacto imediato sobre os rins sugere que o ibuprofeno pode impor uma carga maior ao sistema renal – e, portanto, deve ser evitado por pessoas que já sabem que têm um problema nos rins.
Outra discussão que ainda não tem uma resposta definitiva é se os anti-inflamatórios do tipo do ibuprofeno, chamados não esteroides, podem alterar o fortalecimento muscular promovido pelo treino. Um estudo interessante divulgado em maio, feito com camundongos, trouxe alguns indícios de que essa suspeita talvez seja verdadeira. Os pesquisadores dividiram animais que tinham tido pequenas lesões musculares, comparáveis às causadas por atividades físicas, em dois grupos: um que recebeu anti-inflamatório e outro que não. No exame do primeiro grupo, dos camundongos medicados, eles notaram que menos células novas foram formadas e que o novo tecido muscular, mesmo após a recuperação, não era tão forte quanto o dos camundongos que não tomaram anti-inflamatório. Por isso, além de pesar os efeitos colaterais desse tipo de medicamento para a saúde, vale pensar se o alívio do desconforto não afetará o resultado do treino.

O que fazer
Antes de tomar qualquer medicação, mesmo as que são vendidas sem prescrição, é importante consultar um médico. Ele poderá avaliar se há risco de interação com outros medicamentos que você usa regularmente e indicar as doses mais adequadas, de acordo com seu histórico de saúde.

Se você está fazendo uso regular desses medicamentos para a dor, é sinal de que há algum problema, como uma lesão mais grave, que precisa de tratamento adequado. “Há o risco de agravar uma uma lesão se demorar para fazer o diagnóstico”, afirma o médico Lucas Zambon, do Choosing Wisely Brasil, movimento sobre o uso racional da medicina.
Fontes e Referências
José Oswaldo de Oliveira Junior - Diretor Financeiro da SBED
Ibuprofen versus placebo effect on acute kidney injury in ultramarathons: a randomised controlled trial – Department of Emergency Medicine, Standford University – 2017
Prostaglandin E2 is essential for efficacious skeletal muscle stem-cell function, augmenting regeneration and strength - PNAS - 2017
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