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“Idoso sentir dor não é normal”, alerta especialista



Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor promove, em 4 de agosto, I Simpósio de Dor no Idoso. Geriatra que organiza o evento fala sobre o tema e desmitifica a associação entre dor e velhice

O envelhecimento da população está diretamente ligado com o aumento de doenças e incapacidades que, em muitos casos, podem estar relacionadas à dor. Apesar da alta prevalência, e por ser uma sensação subjetiva, a dor muitas vezes é subdiagnosticada e subtratada em idosos, especialmente naqueles com baixa capacidade cognitiva.

Para falar sobre o assunto, a SBED – Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor entrevistou a geriatra Dra. Karol Bezerra Thé, coordenadora do Comitê de Dor no Idoso da Sociedade, que está organizando o I Simpósio de Dor no Idoso em São Paulo, dia 4 de agosto.

A geriatra ressalta que dor não é normal no processo de envelhecimento e comenta sobre prevalência, como avaliar e mensurar dor em idosos com demência, além dos desafios para os profissionais de saúde. Confira abaixo a íntegra da entrevista.


SBED - É normal idoso sentir dor?

Dra. Karol Thé - A dor no idoso jamais deve ser considerada normal e, por mais que doenças crônicas de saúde, que geram dor, acompanhem o processo natural do envelhecimento, a dor não é consequência natural do mesmo. O seu tratamento deve ser instituído de forma integral e impecável, visando reduzir a ocorrência de complicações. O idoso que possui dor crônica e não tem sua condição dolorosa avaliada e tratada adequadamente apresenta consequências que podem repercutir negativamente na sua qualidade de vida.


SBED - Quais as principais dificuldades das pessoas idosas em comunicar e mensurar suas próprias dores?

Dra. Karol Thé - O método padrão-ouro de avaliar a dor de uma pessoa, da criança maior ao idoso, é através do autorrelato. Assim, o indivíduo expressa verbalmente a dor de maneira subjetiva e pessoal de acordo com suas experiências pregressas. O idoso com comprometimento cognitivo grave, como nos casos das demências, onde o prejuízo de linguagem já está muito comprometido pela evolução da doença, terá dificuldade de expressar verbalmente suas experiências dolorosas. Isso não significa que ele sinta menos dor. 


SBED - A dificuldade acontece apenas em casos de idosos com demência ou comprometimento cognitivo ou pode acontecer com qualquer idoso?

Dra. Karol Thé - No caso de idosos que não têm comprometimento cognitivo com limitação na comunicação verbal, a dificuldade de diagnóstico de dor pode ocorrer por vários motivos. O idoso pode não relatar o sintoma de dor por medo de se tornar um peso para a família, devido a uma maior demanda de cuidado, seja na rotina do dia-a-dia, seja durante o processo de diagnóstico nas consultas médicas; medo de realizar exames diagnósticos e da possibilidade de ter uma doença potencialmente grave, medo relacionado ao vício e efeitos adversos das medicações analgésicas. Além disso, podem ocorrer crenças culturais, religiosas ou acreditar ser normal sentir dor ao chegar nessa fase da vida.


SBED - Como quem está por perto pode auxiliar e perceber quando um idoso está sentindo dor?

Dra. Karol Thé - No idoso com capacidade limitada de comunicação verbal ou demência avançada, o relato do cuidador e de um familiar próximo podem auxiliar de forma significativa o profissional de saúde na avaliação da dor. Estudos revelam que cuidadores e familiares podem reconhecer a presença da dor por meio de mudanças no comportamento do idoso, mas não são capazes de quantificar essa condição.  As manifestações indiretas de dor em idosos com déficit cognitivo, segundo a Sociedade Americana de Geriatria, são englobadas em seis dimensões: mudanças na expressão facial, verbalizações ou vocalizações, movimentos corporais, mudanças na interação interpessoal, mudanças nas atividades rotineiras e mudança no estado mental.


SBED - Estudos revelam que a prevalência de dor em idosos com demência são muito altas. Pode comentar sobre o assunto?

Dra. Karol Thé - Nos consultórios médicos mais de 70% dos idosos queixam-se de algum tipo de dor e, cerca de 50 a 60% ficam parcial ou totalmente incapacitados, de forma gradual e progressiva. A prevalência de dor em idosos com demência é realmente muito alta e, especialmente nos que vivem em instituições de longa permanência (ILP), é de 45 a 80%. Estudos revelam até que a experiência de dor é mais comum na fase final da demência do que na fase final do câncer. Quando não há avaliação e tratamento adequados, idosos com demência sofrem consequências psicossociais, como depressão, ansiedade, piora cognitiva, isolamento social e redução das atividades de vida diárias e físicas, como distúrbios do sono, diminuição do apetite, prejuízo no equilíbrio com maior risco de quedas e perambulação. O impacto é negativo na qualidade de vida. Por isso, indicamos que a família fique atenta e procure sempre a orientação do médico.


SBED - Quais os principais desafios para os profissionais de saúde em diagnosticarem esses pacientes?

Dra. Karol Thé - Se o subdiagnóstico já é comum nos idosos com cognição preservada, naqueles com demência o desafio é ainda maior. Os problemas passam por dificuldades na avaliação da dor. A medida que a doença demencial progride isso se torna ainda maior. A maior barreira para a avaliação de dor nessa população é o prejuízo na comunicação verbal.  Na medida em que a doença demencial progride, isso se torna ainda maior, porque esses idosos em geral são incapazes de comunicar verbalmente suas experiências dolorosas. Outras barreiras para o diagnóstico passam pelo fato de muitos profissionais ainda acreditarem que os idosos possuem um limiar e sensibilidade maior à dor, além disso a inexistência de uma padronização na avaliação de dor para os idosos com demência avançada também é um problema.  


SBED - Existem métodos de avaliação específicos para esses casos?

Dra. Karol Thé - Existem diversos instrumentos de avaliação de dor para idosos com demência já validados na língua portuguesa e o foco desses instrumentos estão na avaliação das manifestações indiretas de dor por meio de mudanças de comportamento. Não podemos esquecer que idosos com demência nas fases iniciais a moderadas têm capacidade de responder as escalas unidimensionais de dor, necessitando haver atenção à medida que ocorre deterioração na linguagem, quando haverá maior barreira de avaliação por essas escalas.

Quer saber mais sobre o assunto? Inscreva-se no I Simpósio de Dor no Idoso da SBED clicando no link.

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